"O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido." (Charles Chaplin)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Para viver nos passos do Espírito

Para viver nos passos do Espírito
Marcelo Barros - monge beneditino e escritor

Uma amiga me pede que eu esclareça a minha fé e proponha elementos ou passos de uma espiritualidade ecumênica para o dia a dia. Partilho com vocês que me honram com a leitura de meus textos a resposta que lhe dei:

1. O que eu creio e o que não creio

Creio não em algo, mas em Alguém. Alguém que é Um e, ao mesmo tempo, se manifesta de formas múltiplas. A maioria das religiões o chama de Deus, que etimologicamente quer dizer Luz. Deus é amor e torna o ser humano capaz de amar e agir por amor. Acolho a vida como a palavra mais maravilhosa de Deus e me comprometo a cuidar sempre com mais amor da vida das outras pessoas, do planeta e da minha própria vida.

Não creio em um Deus, Senhor patriarcal, todo poderoso que premia os bons e castiga os maus. Não creio em um Deus preso a um sistema doutrinário ou dentro da gaiola de uma instituição religiosa. Jesus me fez descobri-lo como Abba (Paizinho) que vai ao encontro do pecador e o perdoa. O bom pastor abre as portas de qualquer aprisco que nos segure e nos chama para fora, onde haja comida e liberdade (Jo 10). Sempre que celebro o seu louvor, me pergunto a quem estou adorando: se a Deus que não me pediu culto e sim justiça ou se celebro a mim mesmo. Quando oro, me questiono se Deus não é o primeiro interessado em tudo o que peço. Portanto, em minha oração, não posso pretender lembrá-lo de fazer as coisas que seria seu dever e ele teria esquecido. Jesus recomendou: "Não use de muitas palavras. O Pai de amor maternal vê o seu coração". Orar é apenas sintonizar com Deus e nos colocar silenciosamente à sua escuta e ao seu dispor.

A espiritualidade é um caminho (há muitos) pelo qual podemos segui-lo no rumo de uma amorização do universo. Aqui, resumo alguns elementos deste itinerário que procuro trilhar:

1 - Seguir a Deus na sua universalidade.

Deus é Amor e, como amor, se dá de mil maneiras. Ele nos fala através de cada religião e caminho espiritual. Jesus valorizou a fé do samaritano, da mulher sírio-fenícia e do oficial romano. Neste mundo, marcado pela diversidade cultural e religiosa, acolher o diferente e com ele dialogar é colaborar para a paz.

2 - Desenvolver uma visão crítica e transformadora do mundo

Conforme o Evangelho, a primeira proposta de Jesus é que vivamos uma profunda e contínua mudança de mente e de vida (em grego, metanoia). Esta conversão é pessoal e social. Este mundo plural é também extremamente injusto. Não creio em verdadeira espiritualidade se não me levar a sentir-me responsável pelos outros e pela realidade do mundo. Faz parte desta espiritualidade a indignação ética diante das injustiças e a solidariedade aos empobrecidos.

Um elemento que provocou a maioria dos males no mundo foi o patriarcalismo. Infelizmente, as próprias religiões absorveram este pecado. As culturas patriarcais tomaram verniz religioso. A espiritualidade ecumênica nos chama a vencer, em nós e no mundo, todo germe de patriarcalismo que discrimina e oprime a mulher, além de alienar o homem. O Evangelho propõe um "discipulado de iguais", profecia de um mundo mais justo.

3 - Testemunhar o amor que fecunda o universo

Optar por uma espiritualidade ecológica não é divinizar a natureza. Nem, ao contrário, se satisfazer apenas com um "desenvolvimento sustentável" que tenta conciliar o capitalismo essencialmente depredador com sustentabilidade. Somos parte do universo e, como tal, nos relacionamos amorosamente com os outros seres e com a vida na Terra. O Espírito Divino nos chama a segui-lo na missão de interligar o universo. Para isso, preciso sempre rever hábitos consumistas e organizar o meu modo de viver a partir da sobriedade e do cuidado com a natureza e a vida de todos os seres.

4 - Acolher as ciências como caminhos de aprendizagem espiritual

Toda verdadeira ciência é inspirada pelo amor divino. Precisamos superar, de um lado, o dogmatismo de quem acha que sabe tudo e do outro, a acomodação de quem não se sente em busca. É preciso criticar uma ciência que visa meramente o lucro das empresas e não opta pelo cuidado com a vida. E lutar para que a ciência seja acessível a toda a humanidade e não só a uma elite que pode pagar seus serviços. Entretanto, é preciso sempre testemunhar que fé e ciência não somente não são incompatíveis, como se complementam.

5 - E Igreja?

Em todas as tradições, o caminho espiritual se vive como principio de vida pessoal, mas em comunhão com os outros. No caso cristão, a fé nos une em uma fraternidade, inspirada em Jesus Cristo e chamada Igreja (assembléia), comunidade local, em comunhão com as outras comunidades de fé, espalhadas pelo mundo. Uma comunidade em permanente renovação. Lutero dizia: "reformata et semper reformanda", renovada e em permanente processo de renovação. Na década de 70, Walter Kasper, hoje cardeal no Vaticano, escrevia: "Muitas das dificuldades que as pessoas têm para viver a fé cristã não vêm da própria fé e sim da forma como os cristãos a interpretam e a vivem". O que mais afasta as pessoas da fé nem são os pecados ou problemas morais dos ministros. Afasta, sim, o enrijecimento de estruturas eclesiais que, no lugar de ajudar as pessoas a viver a boa noticia (Evangelho) da vida, acabam, em nome de Deus, ameaçando a liberdade pessoal e dificultando que as pessoas vivam em paz. Infelizmente, este mesmo tipo de fenômeno ocorre, de um modo ou de outro, em outras religiões.

Graças a Deus, aumenta cada dia o número das pessoas que se dispõem a retomar a solidariedade amorosa como critério de espiritualidade, em qualquer que seja a tradição religiosa. Nas Igrejas cristãs, tem sido para muita gente a expressão que o seguimento de Jesus assume concretamente. Ele se insere no mundo e nos chama a viver sempre para os outros e não para nós mesmos. Tertuliano, um cristão do século II, dizia: "Para quem é cristão, nada do que é humano pode ser estranho!".

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O bom coração




















No tempo do Buda vivia uma velha mendiga chamada “Confiando na Alegria”. Ela observava os reis, príncipes e o povo em geral fazendo oferendas ao Buda e a seus discípulos, e não havia nada que quisesse mais do que poder fazer o mesmo. Saiu então pedindo esmolas, mas o fim do dia não havia conseguido mais do que uma moedinha. Levou-a ao mercado para tentar trocá-la por algum óleo mas o vendedor lhe disse que aquilo não dava para comprar nada. Quando soube que ela queria fazer uma oferenda ao Buda, encheu-se de pena e deu-lhe o óleo que queria. A mendiga foi para o mosteiro e acendeu a lâmpada. Colocou-a diante do Buda e fez o seguinte pedido: “Nada tenho a oferecer senão esta pequena lâmpada. Mas com esta oferenda possa eu no futuro ser abençoada com a lâmpada da sabedoria. Possa eu libertar todos os seres das suas trevas, purificar todos os seus obscurecimento e levá-los a iluminação”.

Durante a noite, o óleo de todas as outras lâmpadas se acabou. Mas a lâmpada da mendiga ainda queimava na alvorada, quando Maudgalyayana, o discípulo do Buda, chegou para recolher as lâmpadas. Ao ver aquela única ainda brilhando, cheia de óleo e com pavio novo, pensou: “Não há razão para que essa lâmpada continue ainda queimando durante o dia”, e tentou apagar a chama com os dedos, mas foi inútil. Tentou abafá-la com suas vestes, mas ela ainda ardia . O Buda o observando há algum tempo, e disse: Maudgalyayana, você quer apagar essa lâmpada? não vai conseguir. Não conseguiria nem movê-la daí, que dirá apagá-la. Se jogasse nela toda a água dos oceanos, ainda assim não adiantaria. A água de todos os rios e lagos do mundo não poderia extinguir esta chama. Por que não?

“Porque ela foi oferecida com devoção e com pureza de coração e mente.
Essa motivação produziu um enorme benefício”.

Quando o Buda terminou de falar, a mendiga se aproximou e ele profetizou que no futuro ela se tornaria um perfeito buda, conhecido como “Luz da lâmpada”.

Em tudo, o nosso sentimento é que importa, a intenção boa ou má influencia diretamente nossa vida no futuro. Qualquer ação por mais simples que seja, se feita com coração produz benefícios na vida das pessoas.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Papa Roach - Lifeline

Sonic Syndicate - My Own Life

Morte e Vida Severina

"...E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida:
mesmo quando é assim pequena
a explosão como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina:
mesmo quando é a explosão
de uma vida Severina".


(João Cabral de Melo Neto, in Morte e Vida Severina)

A origem do amor

“Quando Afrodite nasceu, os deuses reuniram-se num festim onde, entre vários outros se encontrava o Engenho (Poros), filho da sabedoria. Depois de jantarem, eis que apareceu a Pobreza (Penia) a mendigar os restos – como é usual em ocasiões de festa… – e ali ficou, junto à porta. Entretanto o Engenho, já embriagado de néctar (pois vinho nem havia ainda) foi para o jardim de Zeus, e tão pesado se sentia, que adormeceu. Então a pobreza, que na sua natural indigência meditava ter um filho do Engenho, deitou-se junto dele e assim concebeu o Amor. Eis a razão por que o Amor nos surge como companheiro e servidor de Afrodite: concebido nas festas em honra do seu nascimento, é, por natureza, um apaixonado do Belo, pois que Afrodite é bela. Por outro lado, a condição de filho do Engenho e da pobreza ditou-lhe o seu destino. Condenado a uma perpétua indigência, está longe do requinte e da beleza que a maior parte das pessoas nele imaginam… Rude, miserável, descalço e sem morada, estirado sempre por terra e sem nada que o cubra, é assim que dorme, ao relento, nos vãos das portas e dos caminhos: a natureza que herdou de sua mãe fez dele um inseparável companheiro da indigência. Do lado do pai, porém, o mesmo espírito ardiloso em procura do que é belo e bom, a mesma coragem, persistência e ousadia que fazem dele um caçador temível, sempre ocupado em tecer qualquer armadilha; sedento de saber e inventivo, passa a vida inteira a filosofar, este hábil feiticeiro, mago e também sofista” (PLATÃO. O Banquete. In: AZEVEDO, 2001, p. 71-2).

Assim está definido que por natureza o Amor não é nem mortal, nem imortal e simultaneamente agem nele a herança materna da miséria e a paterna da fortuna. O Amor nunca se encontrará nem na indigência, nem na riqueza.

Fonte: Platão. O Banquete. Introdução e notas. AZEVEDO, Maria Tereza Chiappa. Lisboa: Edições 70. 2001.