"O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido." (Charles Chaplin)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A origem do amor

“Quando Afrodite nasceu, os deuses reuniram-se num festim onde, entre vários outros se encontrava o Engenho (Poros), filho da sabedoria. Depois de jantarem, eis que apareceu a Pobreza (Penia) a mendigar os restos – como é usual em ocasiões de festa… – e ali ficou, junto à porta. Entretanto o Engenho, já embriagado de néctar (pois vinho nem havia ainda) foi para o jardim de Zeus, e tão pesado se sentia, que adormeceu. Então a pobreza, que na sua natural indigência meditava ter um filho do Engenho, deitou-se junto dele e assim concebeu o Amor. Eis a razão por que o Amor nos surge como companheiro e servidor de Afrodite: concebido nas festas em honra do seu nascimento, é, por natureza, um apaixonado do Belo, pois que Afrodite é bela. Por outro lado, a condição de filho do Engenho e da pobreza ditou-lhe o seu destino. Condenado a uma perpétua indigência, está longe do requinte e da beleza que a maior parte das pessoas nele imaginam… Rude, miserável, descalço e sem morada, estirado sempre por terra e sem nada que o cubra, é assim que dorme, ao relento, nos vãos das portas e dos caminhos: a natureza que herdou de sua mãe fez dele um inseparável companheiro da indigência. Do lado do pai, porém, o mesmo espírito ardiloso em procura do que é belo e bom, a mesma coragem, persistência e ousadia que fazem dele um caçador temível, sempre ocupado em tecer qualquer armadilha; sedento de saber e inventivo, passa a vida inteira a filosofar, este hábil feiticeiro, mago e também sofista” (PLATÃO. O Banquete. In: AZEVEDO, 2001, p. 71-2).

Assim está definido que por natureza o Amor não é nem mortal, nem imortal e simultaneamente agem nele a herança materna da miséria e a paterna da fortuna. O Amor nunca se encontrará nem na indigência, nem na riqueza.

Fonte: Platão. O Banquete. Introdução e notas. AZEVEDO, Maria Tereza Chiappa. Lisboa: Edições 70. 2001.

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